“Nossa música é uma manifestação de arte”
Rodamundo

Qual rumo a música toma quando a estrutura das 12 canções de um CD ou LP se torna ultrapassada e as pessoas baixam somente as canções que gostam pela internet?
Há pelo menos 40 anos, tudo o que foi produzido e vendido com relação a música no Brasil e no mundo passava pela peneira das grandes gravadoras. Essas empresas que vêem música como a matéria prima de sua indústria, são obrigadas a se reestruturem, já que as novas tecnologias permitem gravação, produção, difusão e até mesmo distribuição sem grandes gastos para os músicos.
Em 1995, dois anos após a popularização do CD no Brasil, as grandes gravadoras venderam a mesma quantidade em unidades de CD que em 1989 de LP e fitas cassetes, mas o lucro neste ano foi três vezes maior. Ou seja, o CD supervalorizou o mercado musical de forma que em apenas seis anos, ficou três vezes mais caro ter um álbum. A tecnologia deveria baratear o custo de produção, mas essa vantagem não foi repassada para o consumidor naquela época. Hoje, paradoxalmente, com a internet, algumas canções podem ser conseguidas gratuitamente.
Até que ponto, mesmo com a desestruturalização e aparente democracia que a internet traz, o mesmo tipo de música continua sendo apreciado? É no mesmo tipo de música que há investimentos das gravadoras que na verdade se transformaram em grandes empresas de marketing. Estas divulgam os artistas em trilhas de filmes, novelas e propagandas impulsionando e lucrando em cima da popularidade de suas estrelas. A música continuaria assim como produto de consumo virtual e ideológico perdendo seu viés artístico, cultural, regional para se tornar um produto global.
A revista Época, realizou o concurso Mente Aberta com a proposta de apresentar as novas bandas do cenário independente e gerar publicidade sobre si e o evento que foi realizado. Por meio da internet, era possível assistir a vídeos das bandas pré-selecionadas e votar na preferida. O concurso elegeu a vencedora, por júri popular – a banda Rodamundo que ganhou três dias de gravação em estúdio. O quinteto participou da competição com a música “Teu Cais”, uma canção contemporânea com pitadas de jazz e bossa nova.
Karina Kaufmann, vocalista da banda vencedora, concedeu uma entrevista ao Memexx, falou sobre a música contemporânea e como suas canções se propõem a ser arte representativa e não somente um produto no mercado cultural. O produtor Carlos Eduardo Miranda integrante da banca do júri do festival, comemora o fato de os internautas terem valorizado algo que transcende o lugar-comum. Karina pretende utilizar a tecnologia a seu favor e assim como Lobão e o Radiohead, disponibilizar suas músicas pela internet.
O que é a música pra você?
Karina Kaufmann – Sem música, a vida seria um erro! É o que já dizia Nietzche, um grande filósofo alemão do século XIX que eu admiro muito, inclusive pela sua capacidade de transcendência e de quebrar padrões intelectuais e religiosos, além de ser um grande poeta e apreciador da música. A música é o lirismo da vida. Acho impressionante a capacidade que a música tem de elevar o espírito do ser humano, de se comunicar através de uma língua universal e estar presente em todas as idades. Acredito, inclusive, que a música surge de uma necessidade biológica do homem de se expressar e se comunicar.
Qual tipo de música vocês fazem?
Karina – Musica brasileira. Mas digo com uma visão mais ampla, não aquela MPB classificada nas prateleiras das lojas. Desta história toda entendemos que o Rodamundo faz parte da nova tendência: a música contemporânea brasileira.
Quais são as influências da banda?
Karina – A banda é composta por músicos que tem influências musicais variadas. Temos influências do rock dos anos 70, da música negra americana dos anos 60/70 como jazz, blues, soul; de músicas africanas e étnicas do mundo. Além de muita música brasileira como Bossa Nova, Caetano, Gil, Chico Buarque, Elis, rock nacional e as atuais de Marisa Monte, Lenine, Nação Zumbi, Fernanda Porto, Pato Fu, Céu, Otto, entre outras.
Em que ponto a música de vocês representa a cultura brasileira?
Karina – Na diversidade dos sons e multiculturalismo. Por sermos um povo miscigenado, o nosso som representa uma parte disso. Fazemos músicas que abordam os sentimentos universais, desde o dia-a-dia de um cidadão brasileiro na grande metrópole, até as crenças regionais e religiosas que existem no Brasil.
Em que lugar está o Rodamundo neste contexto? Cria algum estilo de vida?
Karina – É difícil eu mesma situar se a nossa forma de fazer música e de nos expressarmos traz uma mudança comportamental em alguém. Em nós mesmos já faz diferença porque é uma forma sincera de dizer como vemos e percebemos o mundo em que vivemos de certa forma. Na verdade vou descobrir com o público o que minhas músicas realmente transmitem. A história de um artista não se faz sem a platéia.
Na sua opinião, a música se coloca como indústria de consumo na sociedade?
Karina – Na minha opinião, o mundo moderno transformou a música em objeto de consumo. O século XX, com a Revolução Industrial trouxe também a indústria cultural, como foi denominado na escola de Frankfurt. Mas como no cinema, a música surgiu como uma manifestação artística, uma forma lírica, lúdica e transcendente de expressão. Eu ainda acredito nesta essência e não vejo a música só como algo consumível, porque um produto é consumido e acaba, desaparece um dia. A boa música não.
Para saber mais:
www.festivalmenteaberta.com.br